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REVIEW – Burnout Paradise Remastered

Desenvolvedora: Criterion Games
Publicadora: Electronic Arts
Plataformas: PlayStation 4 Xbox One
Cópia do jogo cedida pela própria publicadora para análise

Há dez anos, Burnout Paradise chegava ao PC, PlayStation 3 e Xbox 360 para redefinir os moldes desta que é uma das séries de corrida arcade que mais marcaram a infância dos jogadores na época do PlayStation 2, provendo disputas em altíssima velocidade e colisões cinematográficas que encatavam os olhos de quem as viam. Diferentemente da progressão linear que era corriqueira nos títulos da franquia, que dispunham de uma listagem pré-definida de corridas que tinham de ser completadas sucessivamente para o desbloqueio de eventos ainda mais desafiadores e de novos veículos, Burnout Paradise ousou ao introduzir uma mecânica de mundo aberto para a exploração, dando a liberdade para o jogador fazer o que quiser na hora que bem entender.

Essa premissa, que já era um grande chamariz em meados de 2008, permanece condizente com o atual mercado de jogos e se destaca até mesmo em meio aos demais jogos de corrida contemporâneos, fazendo-nos desacreditar que realmente faz tanto tempo que o game foi publicado originalmente. Com este valor em mente, a Electronic Arts lançou neste mês de março de 2018 Burnout Paradise Remastered, uma nova versão com melhorias visuais do jogo da Criterion Games para o PlayStation 4 e Xbox One.

Experiência adaptada para as exigências da nova geração de consoles

Na prática, Burnout Paradise continua o mesmo: não houve quaisquer adições de conteúdo ou modificações no funcionamento do jogo. Todavia, para atender às demandas da nova geração de consoles e para fazer jus à expressão “Remastered” que o título carrega, a Electronic Arts aplicou melhorias visuais e de performance que tornaram o jogo ainda mais convidativo aos olhos dos jogadores mais rígidos.

O jogo agora conta com texturas de alta resolução e roda constantemente a sessenta quadros por segundo, mesmo no PlayStation 4 padrão. Além do mais, ele agora tem suporte à resolução 1080p nativamente, podendo ser rodado em resolução 4K a sessenta quadros por segundo no PlayStation 4 Pro e no Xbox One X.

O tratamento visual pelo qual Burnout Paradise Remastered passou, embora não seja muito gritante à primeira vista, é muito mais palpável do que o de muitas autointituladas remasterizações que chegam ao mercado atualmente. O jogo já tinha um visual muito agradável na época em que foi lançado originalmente e a memória que temos dele é a responsável por acharmos que não houve muitas melhorias visuais quando pisamos no acelerador pela primeira vez, mas, se compararmos imagens e vídeos da versão de 2008 e da recém-lançada, percebemos os esforços que foram depositados para deixar Burnout Paradise ainda melhor.

Como um atrativo para todos os jogadores que desejarem revisitar Paradise City ou experienciá-la pela primeira vez, Burnout Paradise Remastered também inclui todos os oito conteúdos adicionais que foram lançados para o jogo como parte do Year of Paradise, sendo eles: Big Surf Island — que abre uma nova área na cidade para ser acessada —, Cops and Robbers, Legendary Cars, Burnout Bikes, Burnout Paradise Toys, Burnout Paradise Party, Boost Specials e Cagney.

Esses DLCs servem como um acréscimo à experiência de Burnout Paradise, provendo novos eventos e veículos desbloqueáveis para acrescentar mais tempo às horas de jogo, que já tendem a ser muito elevadas pela variedade de conteúdo à disposição graças ao sistema de mundo aberto.

Paradise City é um legítimo parque de diversões livre

A maior irreverência de Burnout Paradise está justamente em seu grande palco: Paradise City. A cidade não é muito grande se compararmos a outros cenários abertos para a exploração dos jogos da atualidade, mas, dentro das limitações da época, Paradise City é impressionante pela variedade de trajetos únicos, de eventos que aumentam o nível da “licença de motorista” do jogador e de segredos a serem descobertos pelos caçadores de conquistas, incluindo centenas rotas secretas, centenas outdoors para serem destruídos e centenas Super Jumps, que são rampas gigantes sinalizadas por luzes azuis.

Não há uma sequência de eventos pré-definida a ser seguida para que o jogador avance no game: todas as modalidades de corrida — corrida tradicional, Road Rage, Marked Man, Stunt Run e corridas exclusivas para veículos específicos — estão espalhadas pelos semáforos da cidade e podem ser acessadas a qualquer momento. Se o jogador não quiser mais participar dos eventos, ele pode apenas correr por Paradise City descompromissadamente e procurar pelas rotas alternativas, outdoors ou Super Jumps para receber uma dose de adrenalina e desbloquear conquistas. Conforme o jogador completa eventos, veículos especiais surgem na cidade e devem ser destruídos para que sejam levados ao ferro-velho — que equivale a uma garagem no contexto do jogo — e possam ser desbloqueados para o uso do jogador.

Essa liberdade é uma constante em Burnout Paradise, tanto que as corridas e demais eventos não contam com as até então recorrentes paredes invisíveis para manter o jogador na rota da corrida. Os eventos estipulam uma rota recomendada que pode ser seguida pelo jogador caso ele observe as placas da cidade no canto superior da tela, que piscarão quando for o momento em que ele tiver que virar, mas é possível improvisar o próprio caminho para conseguir algum tipo de vantagem na corrida. Essa característica pode ajudar o jogador em vários momentos, mas ela também pode surpreendê-lo negativamente devido à facilidade para pegar rotas alternativas que o desviem completamente do percurso padrão da corrida.

Infelizmente, os eventos do jogo não são tão desafiadores quanto os dos jogos anteriores da franquia Burnout. Os veículos da inteligência artificial apenas correm à mercê do jogador, esperando para serem destruídos, e raramente representam uma ameaça — excetuando o evento Marked Man, no qual os veículos perseguem o jogador com o propósito de eliminá-lo do início ao fim. O evento Stunt Race, cuja premissa é o acúmulo de pontos ao realizar saltos, drifts e outras manobras no tráfego da cidade, também é um dos poucos que esboçam desafio, já que exige que o jogador tenha um breve conhecimento da estrutura da cidade para acessar os melhores lugares para pontuar — ou pelo menos ter sorte para encontrá-los enquanto correr desgorvenadamente.

Também é possível se aventurar em Paradise City com um grupo de amigos online ou com jogadores aleatórios, mas, devido à dificuldade para encontrar outros jogadores, a melhor forma de aproveitar Burnout Paradise Remastered online é convidando diretamente um grupo de amigos que também tenham o jogo. Uma vez que a sala estiver criada, todos os jogadores terão a liberdade para explorar a cidade inteira, mas o hóspede da partida pode configurar diferentes missões para que todos da sala possam jogar, incluindo corridas, Marked Man — um corredor será selecionado como o “homem marcado” aleatoriamente e deverá ser destruído pelos demais jogadores em um sistema rotativo —, Stunt Run, Road Rage etc.

Os fãs de longa data da franquia, no entanto, deverão ficar decepcionados pela ausência de uma modalidade multiplayer local em tela divida. Assim como o mercado de jogos teve a tendência de abandonar a funcionalidade para dar lugar ao multiplayer online, Burnout Paradise também seguiu por esta direção.

Burnout Paradise Remastered é uma viagem ao passado não tão distante

A decisão da Electronic Arts de relançar Burnout Paradise é plausível. Em meio à crescente listagem de jogos de corridas que são lançados com frequência, um jogo de 2008 permanece notável pela sua autenticidade.

Embora haja muitas controversas entre os fãs da franquia com relação a Burnout Paradise, comparando-o negativamente em relação aos títulos anteriores da época do PlayStation 2, é inegável que esse foi desenvolvido minuciosamente com o propósito de ser divertido — e obteve um bom êxito. Os jogos de videogame podem ser desenvolvidos com muitos objetivos em mente, envolvendo as suas narrativas ou outros aspectos técnicos e culturais, mas, uma vez que eles falham no quesito diversão, eles perdem a verdadeira essência de um jogo eletrônico. Felizmente, Burnout Paradise Remastered preserva essa essência no gênero de corrida de tal modo que até mesmo os jogadores que não sejam muito fãs deste tipo de jogo podem se divertir ou até mesmo começar a se identificar com a fórmula, assim como aconteceu com muitos jogadores que experienciaram Burnout pela primeira vez no PlayStation 2 e que não necessariamente jogavam outros títulos do gênero de corrida.

Atualmente, o jogo está com um preço acima do esperado devido às problemáticas e burocracias do setor de games no mercado brasileiro, sendo vendido por US$ 149,9 na loja digital da PlayStation Store — por questões de comparação, Burnout Paradise: The Ultimate Box, de 2009, custa R$ 36.99 na plataforma Steam —, mas Burnout Paradise Remastered é definitivamente um jogo para ficar de olho caso os jogadores estejam à procura de uma experiência divertida e ao mesmo tempo diferenciada dentro do gênero de corrida.