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REVIEW – Far Cry 5

Desenvolvedoras: Ubisoft Montreal, Red Storm, Ubisoft Shanghai, Ubisoft Toronto, Ubisoft Kiev
Publicadora: Ubisoft
Plataformas: PC, PlayStation 4 e Xbox One
Versão analisada: PlayStation 4
Cópia do jogo cedida pela própria publicadora para análise

O mais recente capítulo da conceituada franquia Far Cry, que é um dos grandes chamarizes da publicadora francesa Ubisoft, fez muito alarde desde o momento em que foi anunciado oficialmente. A razão disso se deve principalmente à temática que foi adotada para esse novo título: uma seita religiosa fanática, comandada pelo “Pai”, Joseph Seed, assumiu controle de Hope County, uma região isolada do estado de Montana, nos Estados Unidos. O local costumava ser pacífico, mas rapidamente se transformou em um pesadelo conforme o “Portão do Éden” começou a pregar a vinda de um apocalipse e a impor seus ideais sobre a população, forçando todos a se juntar à seita com o uso de drogas alucinógenas e força bruta — matando aqueles que se recusassem.

Em meio a esse caos, o jogador assume o controle de um agente do governo que, acompanhado de seus superiores, se dirige à igreja de Joseph Seed para cumprir um mandado de prisão após tomar conhecimento do que acontecia em Hope County. Embora tudo apontasse para o bom êxito da missão, os membros da seita se provam devotos o suficiente para se jogar contra as hélices do helicóptero que levaria o vilão, fazendo com que a operação falhasse e servindo como um gatilho para que os planos da seita começassem a entrar em ação.

Muitos personagens e pouco tempo para os seus desenvolvimentos

Sob esse contexto, o jogador agora terá de encontrar membros-chaves da resistência aos “Edenetes” e trabalhar para que as três regiões de Hope County, que são dominadas por cada um dos irmãos de Joseph SeedJohn Seed, Faith Seed e Jacob Seed —, sejam libertadas.

A história de Far Cry 5 faz um grande esforço para se manter interessante e transmite uma ótima primeira impressão, apresentando alguns personagens interessantes nas suas primeiras horas e construindo um ambiente em torno do medo em razão do fanatismo do Portão do Éden, mas o protagonista é completamente esquecível: ele sequer possui um nome e permanece mudo durante o jogo inteiro, apresentando-se apenas como um cumpridor de ordens sem graça da resistência que viaja por Hope County inteiro. Além do mais, como encontramos personagens importantes da resistência a todo instante conforme cumprimos missões para enfrentar o líder de cada região do mapa, o jogo não oferece tempo o suficiente para gerarmos qualquer tipo de vínculo emocional com esses personagens, fazendo com que a maior parte deles também seja esquecível.

Esse é um problema que não acontece de forma tão severa com os irmãos de Joseph Seed, já que eles são construídos com base no já clássico sadismo dos vilões da franquia Far Cry e pelo fato de eles entrarem em contato constantemente com o jogador via rádio — ou enviando equipes de caça em razão do progresso da história —, mas o jogo ainda assim dispõe de pouco tempo para construir a imagem de três personagens que deveriam atuar como grandes vilões. Isso faz com que o impacto deles seja muito inferior às expectativas, além de dissipar rapidamente o sentimento de medo que sentíamos nos primeiros minutos de jogo. O Pai, que é o personagem que mais convoca a atenção do jogador, aparece em pouquíssimos momentos.

Gameplay dinâmico e um vasto mundo aberto para exploração

Uma das características de maior destaque de Far Cry 5 é definitivamente a sua jogabilidade, que reúne o melhor do que já estrelou nos jogos anteriores. Para o combate, o jogador terá à disposição armas corpo a corpo, pistolas, metralhadoras, escopetas, rifles de precisão, lançadores de granadas, lança-foguetes e arcos e flechas, além da possibilidade de personalizar as armas individualmente para ajustá-las às suas preferências — adicionando silenciadores, miras, mudando a aparência etc.

O jogo também oferece uma ampla variedade de veículos que podem ser resgatados a qualquer momento nos postos da resistência, tanto para locomoção como também para combate: há quadricículos, carros comuns, caminhonetes, vãs, caminhões, barcos e até mesmo aviões e helicópteros pilotáveis, que podem ser adquiridos com o dinheiro que é conquistado saqueando o cenário ou completando missões.

Tudo isso permite que o jogador ajuste a abordagem que tomará para concluir uma missão: os que preferirem um estilo furtivo poderão selecionar o armamento apropriado e finalizar os inimigos pelas costas facilmente; caso o jogador deseje explodir tudo, é possível, por exemplo, resgatar um helicóptero de combate e disparar dezenas de mísseis em poucos segundos.

Outro acréscimo muito interessante da mecânica de Far Cry 5 é o sistema de equipe. Conforme avançamos na história, encontramos personagens da resistência que possuem habilidades especiais e que se colocam à disposição para nos acompanhar durante a jogatina, podendo ser chamados e dispensados a qualquer momento a partir do menu. Entre esses companheiros, temos: o cachorro Boomer, que denuncia a localização dos inimigos e que pode até mesmo roubar as suas armas; Nick Rye, que pode prestar suporte aéreo com o seu avião; Grace Armstrong, que realiza tiros precisos com a sua sniper; Sharky Boshaw, que presta suporte com um lança-chamas e muitos outros.

Infelizmente, a inteligência artifical desses companheiros não é das melhores e é bem comum eles chamarem a atenção dos inimigos caso o jogador deseje investir em uma abordagem furtiva; Nick Rye, por exemplo, tem o péssimo hábito de colidir o avião com montanhas e torres, ficando indisponível por alguns minutos em momentos de aperto. Isso pode gerar muita frustração e acaba sendo mais vantajoso dispensar todos os companheiros de equipe para que não haja inconvenientes durante as missões.

O jogador também recebe pontos de vantagem ao completar desafios e progredir na história. Esses pontos permitem que ele incremente as habilidades do protagonista, adicionando a possibilidade de usar rapel, voar de wingsuit, sabotar veículos, carregar mais armas e itens no inventário, aumentar a furtividade, aumentar a velocidade no carregamento de armas e muito mais.

Esses benefícios incentivam o jogador a explorar desafios que estiverem espalhados pelo cenário e colaboram para deixar o gameplay de Far Cry 5 cada vez mais variado e divertido.

O mundo aberto de Far Cry 5 é um dos maiores já estrelados em um jogo de tiro em primeira pessoa, sendo composto por inúmeras cidades, instalações da seita, rios, florestas, montanhas e outros segredos que recompensam os jogadores mais exploradores.

A riqueza desse mundo é evidenciada por cada região de Hope County. Como as três regiões são dominadas por vilões diferentes e têm propósitos diferentes para os planos da seita, há instalações, inimigos e acontecimentos que encontramos somente em cada uma delas, passando de fato a sensação de que estamos em um território diferente com novas coisas para serem descobertas e resolvidas. As nossas conquistas nas missões do jogo também refletem na quantidade de terra dominada pela seita, convidando o jogador a acabar com a infestação do Portão do Éden para ver suas instalações recuperadas pelos membros da resistência e civís.

Com um palco tão vasto para a ação do jogo, é possível encontrar uma série de coletáveis e de missões paralelas que também oferecem diferentes recompensas, mas isso também pode ser um ponto negativo aos que desejam uma campanha mais “direta ao ponto”, já que as missões da história sempre exigem que o jogador se desloque do ponto A ao ponto B — que podem ser bastante distantes um do outro, justamente para forçar o jogador a viajar por cada canto de Hope County.

Far Cry Arcade e campanha inteiramente cooperativa – porém questionável

Uma das adições mais interessantes de Far Cry 5 é o Far Cry Arcade, uma modalidade de jogo que permite a criação de cenários únicos para que sejam compartilhadas com a comunidade do jogo. Entre os mapas mais populares, há recriações do Battle Royale de PlayerUnkown’s Battlegrounds, do cenário de_dust de Counter-Strike, de The Last of Us e até mesmo da mansão dos Bakers de Resident Evil VII.

Esse é um recurso que colabora para o fator replay do jogo e que se prova muito divertido, principalmente levando em consideração que o jogador consegue carregar todas as melhorias de personagem que são feitas na campanha principal.

A longo prazo, muitos cenários criativos e interessantes serão disponibilizados pelos jogadores ou até mesmo pela própria Ubisoft, prometendo deixar a comunidade sempre engajada e experienciando coisas novas dentro de Far Cry 5.

Por outro lado, também há a possibilidade de jogar a campanha inteira de Far Cry 5 de maneira cooperativa com um amigo, independente do progresso que ambos os jogadores já tenham feito no jogo. Todavia, todo o progresso que é feito durante a sala cooperativa será atrelado apenas ao jogador que estiver hospedando — o segundo jogador será apenas um acompanhante e não receberá nada.

Isso significa que, após uma longa sessão de partida cooperativa, o segundo jogador terá a sensação de que não avançou no jogo. Ele sequer é capaz de interagir com os NPCs ou de comprar os equipamentos mais avançados.

Outra informação importante é que os dois jogadores não podem ficar muito distantes um do outro, o que pode afetar algumas estratégias em missões que abrangem uma vasta área do cenário.

Os acertos de Far Cry 5 não são suficientes para tornar a experiência menos maçante

A fórmula de cumprir missões para uma série de NPCs já é bastante conhecida pelos jogadores e, embora seja funcional, é muito fácil de ela colaborar para tornar a experiência tediante se mal empregada.

Embora Far Cry 5 tenha uma jogabilidade dinâmica e um cenário bonito e amplo para a exploração, a fórmula das missões começa a se repetir da metade do jogo para o final. Sempre somos encaminhados a uma base da seita para derrotar os mesmos tipos de inimigos. Em uma das tentativas frustradas que o jogo tentou variar, como é o caso do médico da resistência que encontramos na região de Faith Seed, ele proporcionou uma das piores experiências possíveis: o NPC agia por conta própria e se distanciava da região da missão com medo do tiroteio, obrigando a reinicialização. Quando tudo acabou, após múltiplas tentativas, o médico exigiu a coleta de itens em regiões de caça que não são marcadas no mapa, oferecendo missões mais tediantes ainda em meio a um momento em que o jogador apenas quer progredir na história pelo fato de a experiência estar maçante. Felizmente, essas missões do médico não são obrigatórias, já que as regiões oferecem afazeres mais do que o suficiente para “completar” uma região e confrontar o seu respectivo chefe.

À luz disso, o sentimento que prevalece em Far Cry 5 é o do desencorajamento, já que o jogador apenas deseja completar as missões principais o mais rápido possível para irritar o líder da região e ser convocado para as missões que envolvem diretamente um dos irmãos de Joseph Seed, que costumam ser muito mais interessantes do que as que são requisitadas pelos membros da resistência. O jogo perde a oportunidade de desenvolver personagens que tinham o potencial para ser muito interessantes devido à alta quantidade de membros da resistência com os quais interagimos durante a campanha principal, não havendo a afeição esperada de um jogo single-player.

Os jogadores que gostarem da fórmula de Far Cry e de um vasto mundo aberto para a exploração deverão se divertir com Far Cry 5, mas os que desejarem uma experiência mais “direta ao ponto” e com um elenco forte com personagens marcantes acabarão por ficar entediados.