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REVIEW – Resident Evil 2 Remake

Desenvolvedora: Capcom
Publicadora:
Capcom
Plataformas:
PC, PS4 e Xbox One
Cópia cedida pela publicadora para a produção de review

Há pouco mais de 20 anos, Resident Evil 2 chegava ao mercado para continuar o legado de uma das franquias mais conceituadas da história do horror de sobrevivência. Além de personagens icônicos e de uma história caricata, o jogo também era recheado de quebra-cabeças que foram responsáveis por engajar toda uma geração sedenta pela descoberta de segredos, seja em locadoras ou na casa de amigos. Apesar de tantas qualidades e de tantas boas memórias conservadas pelos fãs, o jogo original não era mais capaz de apelar às novas gerações de jogadores e ficou para trás, ao mesmo passo em que a franquia se atualizava e gerava controversas

Reconhecendo a força do game, a Capcom atendeu aos pedidos dos fãs e, há mais de quatro anos, anunciou que estava trabalhando em um remake de Resident Evil 2. Em 25 de janeiro de 2019, essa reimaginação do clássico enfim chegou ao mercado para PC, PS4 e Xbox One para repetir o feito do título original: estabelecer novos padrões no gênero de terror e cativar uma nova multidão de jogadores.

Isso é feito com grande primor e com uma dose de respeito à obra original: ao mesmo passo em que os fãs de longa data reconhecerão vários personagens, momentos da história e pontos do cenário — da clássica delegacia ao laboratório —, o jogo por completo é pautado de uma forma que a experiência será inédita mesmo para os que conhecerem Resident Evil 2 pelo avesso — repleta de perigos e, principalmente, de tensão.

Claire Redfield, uma das personagens mais icônicas da franquia Resident Evil. Foto: Divulgação/Capcom

O pesadelo de Leon S. Kennedy e Claire Redfield em uma nova magnitude

Assim como no jogo original, é possível experiênciar as campanhas de Leon S. Kennedy, novato da polícia que viverá seu primeiro dia de trabalho de uma forma que nunca imaginou, e Claire Redfield, que está à procura do seu irmão Chris Redfield, que também faz parte da polícia. O jogador pode experienciar a rota A e a rota B — descrita no jogo como “Segunda Jornada” — e cada uma delas pode ser jogada com ambos os personagens, resultando em pelo menos quatro zeramentos.

As campanhas compartilham vários cenários e quebra-cabeças, mas momentos-chave para a progressão da história, a localização dos itens, armas e códigos para destravar portas do jogo se diferem; é até mesmo possível acessar salas exclusivas para cada personagem, revelando novas rotas e permitindo traçar outras estratégias para se locomover pelo cenário.

O tom cinematográfico da história é bastante acentuado e deixa o jogador imerso e ansioso pelo que pode acontecer em seguida, desenvolvendo muito bem os personagens principais e até mesmo os que fazem ligeiras aparições. Apesar disso, infelizmente, as histórias de Leon e Claire não conversam muito bem entre si, gerando furos de roteiro e confusões. Para exemplificar, é comum resolvermos o mesmo puzzle com ambos os personagens, tal como o da estátua da deusa do saguão principal da delegacia, mas, na teoria, um dos personagens já teria passado por ali antes da vinda do outro na trama. Até mesmo os principais combates contra chefes se repetem, independente da campanha escolhida, e a ordem dos acontecimentos entre os personagens também não faz muito sentido.

Os zumbis agora são uma verdadeira ameaça: além de resistir a muitos tiros, eles são posicionados estrategicamente e até atacam em conjunto. Foto: Divulgação/Capcom

A boa e velha sensação de estar perdido e com medo

O level design da releitura de Resident Evil 2 é primoroso. Todos os cenários possuem caminhos diferentes e segredos que instigam a curiosidade — mas, acima de tudo, o jogo não é linear. O jogador terá de passar pelos mesmos lugares várias vezes para resolver quebra-cabeças, descobrir segredos e coletar itens-chave, sempre sob os perigos da pouca luminosidade dos cenários, dos corredores estreitos e das dezenas de zumbis.

Essa é uma característica excelente em Resident Evil 2: quando um jogo de terror e sobrevivência exige que o cenário seja explorado minuciosamente para a resolução de problemas, ele se torna muito mais interessante e cumpre o seu papel. A atmosfera foi construída para deixar o jogador tenso a todo instante, mesmo em momentos em que ele já está familiarizado com o cenário — não entraremos em muitos detalhes aqui, mas, em dado momento do jogo, a aparente sensação de tranquilidade é completamente destruída em razão de um perigo imprevisível e intimidador.

Uma das preocupações dos jogadores com relação ao novo Resident Evil 2 era justamente com relação à dificuldade dos zumbis. No jogo original, eles eram facilmente ignorados e não representavam uma ameaça muito grande, mas, agora, os zumbis são absurdamente resistentes e podem até mesmo atacar em grupos para desferir mais dano. O jogador pode gastar uma dezena de tiros e ainda assim o zumbi continuará rastejando à sua direção, exigindo cautela ao gastar a munição — que já não existe em abundância.

É possível também atirar em pontos estratégicos do zumbi para afetar sua movimentação: se o jogador disparar contra as pernas, elas serão decepadas e o zumbi não se movimentará com tanta facilidade; se atirar nos braços, o zumbi terá dificuldade para agarrar o jogador, que pode escapar em uma primeira tentativa de mordida. Isso é importante principalmente porque os corpos dos zumbis não desaparecem do cenário: se o jogador passar pelo lugar em que “matou” um zumbi três horas depois, o corpo estará lá e terá o risco de ele se levantar a qualquer momento para assustar e causar dano.

Em resumo, a ambientação não poderia ser melhor: além de legitimamente assustadora, ela é desafiadora e divertida ao mesmo tempo — até mesmo quando você fica sem espaço no inventário e tem de otimizar o gerenciamento de seus recursos. Todos os cenários são muito bem feitos e apresentam o mesmo padrão de qualidade, configurando um dos pontos mais positivos do game.

Todos os cenários estão incríveis e, ao mesmo tempo em que parecem familiares, apresentam novidades o suficiente para tornar a experiência inédita. Foto: Divulgação/Capcom

Um alto nível de fidelidade que dá outra cara ao clássico da Capcom

Graças ao RE Engine, motor gráfico utilizado pela primeira vez em Resident Evil 7, Resident Evil 2 Remake apresenta um altíssimo nível de fidelidade visual. Os modelos dos personagens são muito bem feitos e possuem expressões faciais muito realistas; até mesmo os zumbis se despedaçando são críveis e dão um gelo na espinha. A Capcom já dizia que a experiência visual de Resident Evil 2 Remake seria “de cair o queixo” e isso não foi dito à toa: o jogo sem dúvidas é um dos mais bonitos já produzidos pela empresa e aproveita muito bem a tecnologia da nova geração, consistindo em um produto de altíssimo valor técnico.

Os efeitos sonoros também são impressionantes: é possível deduzir a localização de inimigos que estiverem ao redor e cada barulho esquisito é o suficiente para aumentar o nível de tensão. Por isso, é altamente recomendado jogar com fones de ouvido para que a jogatina seja ainda mais interessante.

Aliado a isso, a nova perspectiva de gameplay também torna a experiência muito diferente: no Resident Evil 2 original, a câmera era fixa e se posicionava em ângulos diferentes em cada área que o jogador visitava; agora, a câmera está posicionada nas costas do personagem, facilitando a mira, a exploração e até mesmo intensificando a imersão.

Frequentemente, a câmera pode atrapalhar quando o jogador é agarrado por um zumbi em um corredor estreito, mas isso só deve se tornar em um problema aos jogadores mais rígidos. De um modo geral, o jogo não sofre com bugs e as jogatinas devem acontecer de uma maneira muito fluida.

O ano de 2019 começou com um fortíssimo candidato a jogo do ano

Não havia dúvidas de que Resident Evil 2 Remake seria um grande jogo. Apesar da demora, a espera valeu a pena e tanto os fãs como também os potenciais novos entusiastas da franquia Resident Evil ficarão muito satisfeitos com o resultado.

Além dos zeramentos tradicionais, o jogo viabiliza o fator replay ao recompensar o jogador por concluir as histórias no menor tempo possível; há também os modos adicionais “O Quarto Sobrevivente” e “Tofu Sobrevivente”, que colocam os jogadores contra incontáveis inimigos. A Capcom ainda promete apoiar o game com conteúdos adicionais, incluindo o recém-anunciado “The Ghost Survivors“, que será disponibilizado gratuitamente a partir de 15 de fevereiro de 2019 e que trará mais três personagens jogáveis em um equivalente ao modo Raid de Resident Evil: Revelations.

Um trabalho tão bem feito como este acende as esperanças para um hipotético Remake de Resident Evil 3: Nemesis. Enquanto isso não acontece, os fãs poderão aproveitar o que já é, sem sombras de dúvidas, o melhor Survival Horror dos últimos tempos.