Reviews

REVIEW – Yakuza 6: The Song of Life

Desenvolvedora: Sega
Publicadora: Sega
Plataforma: PlayStation 4
Cópia do jogo cedida pela própria publicadora para análise

Em meio a um mercado com obras cada vez mais ambiciosas e com alto valor de produção, a franquia Yakuza, da Sega, segue com uma trajetória de mais de dez anos de história quase que às sombras. Embora muitos felizardos que conheceram a franquia na época do PlayStation 2 e amantes das produções da Sega a apoiem ao longo destes últimos anos, muitas pessoas também deixaram de dar uma chance à série, seja por não se sentirem atraídas pela temática ou por preferirem outras franquias mais midiáticas.

Yakuza 6: The Song of Life é o jogo que dá desfecho à história do onipotente Dragão de Dojima, Kazuma Kiryu — protagonista da série. Ele é um jogo de ação em mundo aberto com elementos de combate no melhor estilo beat’em up dos arcades.

Ao mesmo passo em que o jogo serve aos fãs como um peça importantíssima para a história da franquia, ele também se esforça para ser convidativo aos jogadores que quiserem conhecer o legado de Kazuma Kiryu e todos os seus esforços para proteger as pessoas que são queridas para ele. O interessante disso tudo é que Yakuza 6: The Song of Life faz isso sem se desprender daquilo que marcou cada uma das iterações da série: a essência permanece intacta e até mesmo otimizada para a nova geração de consoles, embora alguns pormenores da sua mecânica estejam simplificados e, por sua vez, mais atrativos a todos os que quiserem explorar a franquia a partir deste ponto.

Um mundo compacto para a exploração, mas com muitas coisas interessantes para serem feitas

Um dos grandes destaques de Yakuza 6: The Song of Life é a sua variedade: nos momentos de exploração, o jogo oferece cenários abertos que, embora não sejam grandes como o que se espera de jogos em mundo aberto, são muito competentes. Somos capazes de explorar representações muito fiéis das ruas de Kamurocho, em Shinjuku, Tokyo, e de interagir com diversos estabelecimentos — restaurantes, lojas de conveniência, academias, karaokês, game centers etc. Conforme avançamos na história principal, também conseguimos acesso ao distrito de Onomichi, em Hiroshima, que também possui os seus pontos de interesse e de interação, sendo possível até mesmo jogar baseball e spearfishing. Essas representações são de grande valor a todos que se interessam pela cultura japonesa e que desejam visitar o país algum dia, já que realmente passam a sensação de que estamos passeando pelas ruas de Shinjuku ou de Hiroshima.

Como parte desses pontos de entretenimento, também é possível jogar vários títulos da Sega, incluindo uma versão completa de Virtua Fighter 5: Final Showdown para máquinas arcade e Puyo Puyo — ambos com suporte a dois jogadores locais —, além de outros clássicos da Sega, tais como Out Run, Fantasy Zone, Super Hang-On e Space Harrier.

Além disso tudo, o jogador também tem as opções de atuar como um justiceiro e punir os criminosos de ambas as cidades, recrutar meliantes com um organizador de clã para lutar contra uma organização em ascensão chamada JUSTIS e fazer uma série de missões secundárias interagindo com NPCs — algumas cômicas e outras que têm relação com Kazuma Kiryu ou com personagens da história do jogo.

Todos esses elementos, que são recorrentes na franquia, propiciam a liberdade do jogador, incentivando-o a explorar o mundo de Yakuza 6: The Song of Life e até mesmo revisitá-lo após o zeramento do jogo, já que são oferecidas as opções de apenas explorar as cidades ou começar um New Game Plus — recomeçar a história mantendo os atributos do personagem e habilidades desbloqueadas.

Os amantes de jogos de briga de rua clássicos serão recompensados com um sistema de combate divertido e progressivo

A jogabilidade de Yakuza 6: The Song of Life também é um dos seus maiores destaques: bebendo da fonte de jogos de briga de rua que se consagraram nos arcades, alternamos entre ataques leves e pesados, defendemos, contra-atacamos, pegamos objetos e agarramos os nossos oponentes para arremessá-los contra os demais que estiverem ao redor.

Conforme conseguimos experiência, somos capazes de evoluir aspectos como vida, força, defesa, evasão e Heat Gauge — que serve para ativar um modo de fúria que aumenta o dano causado e habilita finalizações especiais que causam uma grande quantidade de dano. Essa progressão torna os combates tanto divertidos como também desafiadores: conseguimos novas formas de finalizar os inimigos e de reagir aos ataques deles, mas os oponentes também ficam mais poderosos dentro da progressão da história, exigindo o domínio da esquiva, do parry e dos momentos corretos para agressivar.

O desbloqueio de novas habilidades é recompensador, mas também exige uma análise por parte do jogador: como os pontos de experiência devem ser utilizados tanto para os atributos de base como também para o desbloqueio de habilidades, é preciso ter cautela e gerenciá-los conforme a necessidade do momento. O jogo não terá piedade caso algum erro seja cometido na hora de atribuir a experiência, e isso é ótimo: o jogador não é subestimado e deve ter ciência do que está fazendo.

Infelizmente, em determinados momentos do jogo, sentimos a falta de mecânicas stealth — principalmente a de cover. O jogo tenta propor estágios de progressão nos quais o jogador permanece em postura de batalha em vez da tradicional transição entre “gameplay de exploração” e “gameplay de combate”, mas temos a impressão de que esses momentos não foram otimizados para esse estilo de jogabilidade. Apesar disso, são poucos os momentos em que sentimos essa falta.

Um bom enredo, embora o excesso de informação em seu desenvolvimento possa assustar 

A história de Yakuza 6: The Song of Life gira em torno da busca por respostas. Kazuma Kiryu, após cumprir uma pena de três anos na cadeia e para se sentir purificado dos seus tempos de Yakuza, retorna ao orfanato Asagao para reencontrar as crianças que teve de deixar para trás, incluindo a sua querida protegida Haruka Sawamura. Todavia, ao retornar, Kazuma descobre que Haruka havia deixado o local e, em sua busca, descobre que ela foi vítima de um atropelamento em Kamurocho alguns dias antes do seu retorno, encontrando-se em estado de coma. De alguma forma, Haruka foi capaz de proteger o seu bebê, sobre o qual Kazuma ainda não tinha conhecimento, mas esta situação serve de gatilho para que o protagonista começasse a investigar a razão pela qual Haruka se viu obrigada a abandonar o orfanato Asagao, quem é o pai da criança e se o atropelamento sofrido se tratou de um acidente ou se foi algo a mais.

A trama se desenvolve muito bem em torno dessa premissa e um jogador que não experienciou os jogos anteriores é capaz de acompanhar o desenrolar dos seus eventos sem muitas complicações, mas, conforme encontramos novos personagens e nos aprofundamos nos mistérios, somos recebidos por uma série de conflitos políticos e de informações acerca da guerra de valores de diferentes máfias em Kamurocho e Onomichi que acabam por prolongar excessivamente as sequências narrativas e gerar confusões sobre o que está de fato acontecendo.

Apesar desses problemas com o ritmo da trama, somos agraciados por personagens carismáticos e por surpresas que instigam a curiosidade, incentivando-nos a continuar o jogo para saber o que pode acontecer a seguir.

Evidentemente, há constantes referências a eventos dos títulos anteriores, mas o próprio menu do jogo oferece um resumo de cada título da franquia para deixar todos mais situados.

Infelizmente, a ausência de legendas em português do Brasil é uma grande lamentação, já que dificulta a acessibilidade em território brasileiro e até mesmo a produção de conteúdo em plataformas como YouTube e Twitch para criadores que são fãs da série e desejam divulgá-la— já que acaba não havendo demanda por parte do público. Em um mercado que está cada vez mais compromissado a localizar os seus jogos para o território brasileiro, muitos jogadores que não sabem inglês têm a preferência de experienciar jogos com suporte ao português do Brasil, já que assim conseguem tirar proveito de tudo que ele tem a oferecer.

Em um jogo com narrativa densa como Yakuza 6: The Song of Life, a ausência de legendas em português do Brasil é decisiva na hora de novos jogadores darem uma chance ao título.

Yakuza 6: The Song of Life é o ápice da franquia, honrando o legado de Kazuma Kiryu e oferecendo dezenas de horas de emoção e diversão

De um modo geral, Yakuza 6: The Song of Life é um jogo muito competente. É notável que o orçamento da sua produção é inferior ao de outros títulos da atualidade, especialmente quando envolvemos o gênero de mundo aberto, mas não podemos negar que houve muita dedicação para deixá-lo tão divertido e variado quanto muitos dos jogos de maior popularidade do mercado.

Todos os interessados pela cultura japonesa ou pelos jogos da Sega de um modo geral — com um pouco mais de ênfase nos beat’em up nos quais a companhia já trabalhou — se identificarão com Yakuza 6: The Song of Life. Sempre teremos alguma forma de nos entreter nas ruas de Kamurocho ou em Onomichi, e isso tem um grande valor para a experiência. O primeiro passo, no entanto, é dar uma chance para conhecer esse universo.

Existe uma versão de demonstração na PlayStation Network que retrata o início do jogo. Os que quiserem acompanhar a história de Kazuma Kiryu desde o início, no entanto, devem ficar de olho em Yakuza Kiwami e Yakuza Kiwami 2, que usam a mesma engine de Yakuza 6: The Song of Life e que são remakes do primeiro e segundo jogo da franquia.